11 de ago. de 2009

"
Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas
(Oscar Wilde)

E quem olha se fode.
(Lori Lamby)
"

[CADERNO ROSA DE LORI LAMBY - HILDA HILST. Ed. MASSÃO OHNO]

MORTE EM VENEZA

As observações e as vivencias do solitário calado são ao mesmo tempo mais difusas e intensas do que a dos seres sociáveis, seus pensamentos, mais graves, mais fantasiosos e sempre marcados por um laico de tristeza. Imagens e impressões que facilmente seriam esquecidas com um olhar, um sorriso, uma troca de opiniões ocupam-no mais do que o devido, aprofundam-se no silêncio, ganham significado, transformam-se em vivência, aventura, sentimento.

A solidão engendra o original, o belo ousado e surpreendente, o poema. Mas engendra também o inverso, o desmedido, o absurdo e o ilícito.

Era assim que as imagens da viagem - o horroroso velho janta com seus disparates sobre a amada, o gondoleiro clandestino, logrado em seu pagamento - ainda agora perturbavam o ânimo do viajante. Sem construir um desafio à razão, sem fornecer, na verdade, material para reflexão, eram no entanto, ao que lhe parecia, profundamente estranhas, por sua própria natureza, e era justamente essa contradição que as tornava inquietantes. Ao mesmo tempo, ele saudava o mar com os olhos e se alegrava em saber Veneza tão próxima, tão acessível..


(fragmento. MORTE EM VENEZA/Thomas Mann. Tradução: Eloísa Ferreira Araújo Silva.)

Poesia -

A vida fora da autografia.
A vida fora da biografia.
A vida fora da caligrafia.
A vida fora da discografia.
A vida fora da etnografia.
A vida fora da fotografia.
A vida fora da geografia.
A vida fora da holografia.
A vida fora da iconografia.
A vida fora da logografia.
A vida fora da monografia.
A vida fora da nomografia.
A vida fora da ortografia.
A vida fora da pornografia.
A vida fora da quirografia.
A vida fora da radiografia.
A vida fora da serigrafia.
A vida fora da telegrafia.
A vida fora da urografia.
A vida fora da videografia.
A vida fora da xilografia.
A vida fora da zoografia.
- A vida inde.

[Arnaldo Antunes - Tudos]

Lírios Mortos

Bendigo os lírios d’alma, amortecidos lírios,
Que tombam sem olor em anciãs dos martírios!
Lírios! Que por camena erguidos da miséria,
Ao cálamo oferece esta camena etérea,
Esta carme de dor! Lírios negros... horríveis...
As divicias do amor! Lírios tão marcescíveis,
Que aliciam o pó e se entregam ao nada.
Lírios negros - a fome, a dor imaculada,Imaculada dor.

O’ lírios fenecidos
Em sentimentos mil, em acroamas nascidos,
Que fazem soar pelas dores liriais...
No lodo impuro - a vida,
entreabrem-se lírios:
- Dores, misérias vis...
almas entre delírios...

Os lírios sem olor que sucumbem com a sorte,
E sucumbem sorrindo...
os lírios:
atroz esquecimento,
Oculta atra miséria e na miséria expira...
Porém, meu sentimento, a minha doce lira,
Tange.
Minha alma, chora:
a lira,
tange e chora...
Minha alma triste...
Sente horrores e se penhora.
Na miséria e na dor
que sinto no meu peito:
Na miséria e na dor
de que este mundo é feito!

Lírios d’alma Senhor, são negros, espinhosos,
Que na miséria são, espinhos dolorosos,
Ferindo a humanidade, envenenando a vida”
Que inspira compaixão!
Lírios, espinhos são:
Sacros, sentimentais,
de divinal unção!
Prantos de desespero, herpes só de infortúnios....
Prantos, consolo da alma, herpes de plenilúnios!

Ó! Quando cai um pranto,
um doce lírio tomba;
Quando um gemido esvai,
um doce lírio zombaEmurchecido na haste e emurchecido... morre;A seiva se desprende....
e chora...
e pranto escorre!

Ó lírios de minha alma, ó lírios divinais!
Lírios negros - misérias, atroz, sentimentais!
Lírios de minha vida - um mar de sentimentos,
Um mar de dores feito, um mar cheio de portos,
Benditos
lírios
da alma,
ó negros
lírios
mortos!



[Lírios Mortos, Silvino da C. Silva. São Pailo, 1932 - pagina 86]

14 de jul. de 2009

CANTO DE LOPLOKAMONA

Coroada de íris negros e goivos amarelos,
a noite sai dos bosques onde há deuses e mistérios.

Mas, antes que ela venha, com seus lábios merencórios,
beber o vinho de ouro com que o sol encheu meus olhos.

danço uma dança solta como as folhas entre a névoa,
e canto um canto longo como o vendo mau que as leva

E cai, como uma folha, cada gesto do meu corpo;
e leva-os pela névoa minha voz, que é como um sopro.

Coroado de íris negros e goivos amarelos,
A noite sai dos bosques, onde há deuses e mistérios.

LOPLOKAMONA E ÓPHIS

Óphis
Deita-te aqui, perto de mim!
Toda estendida... Vem mais perto... Mais

Loplokamona
Assim?

Óphis
Assim. Não te descubras tanto
Não quero que te toque o chão. Deixa o teu manto
De lã neutra morrer
Entre a terra e o teu corpo: tenho ciúme da terra.

Loplokamona
E sabes bem que ela há de ser a ultima a me
possuir, quando eu for um perfume na planíce de asfólos...

Óphis
Que queres?
Fui feita para o amor. Os homens e as mulheres
São iguais para mim. Ah! Quando eu for somente
Uma luz subterrânea entre as sombras de paz,
Farás a minha sepultura e escreverás
Sob a taça e a serpente:
- "Sou Óphis de Cynthera
"O meu leito foi grande e sonoro de amor.
"Põe um silêncio grave entre teus pés e a terra:
"Não me acordes, viajor!
"Esta é a primeira vez que me deito sozinha..."

Loplokamona
Pois se a terra há de ser tua amante e a minha,
porque ter ciúmes dela?

Óphis
Loplokamona, há pouco,
Quando dançavas sobre as folhas cor de fogo
A tua dança de fumaça, quase
Fugindo para o céu
Nos movimentos de teu véu
Áureo, de gaze!
Eu abençoei o outono
Que estendeu pela terra o tapete de sono,
Isolando os teus pés
Do chão corrupto como um homem.

Loplokamona
E és
Quase um homem também: o teu ventre é moreno
E exíguo como uma concha do mar;
O teu seio é tão pequeno
Que mal contem um beijo, o teu olhar
É distante como as montanhas, e os joelhos
São firmes e têm força, e os teus cabelos
São cortados como os de um atleta...
Parece um pastor
E parece um poeta

(...)

( Guilherme de Almeida - Literatura Comentada, pág.65/66 - ed. Abril)

6 de jul. de 2009

Lúcifer - O Portador da Luz (outras visões)

O Mistério do Lúcifer-Prometeu
"O diabo - se é permitido num livro de ciência empregar esta palavra desacreditada e vulgar - o diabo se dá ao mago e o feiticeiro se dá ao diabo." (Eliphas Lévi)
Lúcifer Prometeu, acorrentado na dura rocha da lide cotidiana, sofre com o Abutre do materialismo e da vulgaridade que abunda na sociedade.
Esse Abutre do vulgarismo, da profanidade, da anti-iniciação, corrói o fígado desse Titã, que por amor à essência humana, roubou o Fogo do Olimpo. O fígado é o Calvário onde crucificamos todos os dias o Salvador.
A figura trágica e rebelde de Prometeu, símbolo da humanidade, constitui um dos mitos gregos mais presentes na cultura ocidental. Filho de Jápeto e Clímene - ou da nereida Ásia ou ainda de Têrmis, irmã de Cronos, segundo outras versões - Prometeu pertencia à estirpe dos Titãs, descendentes de Urano e Gaia e inimigos dos deuses olímpicos.
[veja continuação da matéria: http://www.gnosisonline.org/Teologia_Gnostica/misterio_lucifer_prometeu.shtml]

Luciferanismo
O Luciferianismo é um conjunto de crenças cuja base encontra-se fixada na figura de Lúcifer. Divide-se em Luciferianismo Tradicional ou Teista (crença em Lúcifer como um ser espiritual) e Luciferianismo Simbólico ou Agnóstico* (crença em Lúcifer como um símbolo de luz, conhecimento, crescimento individual e auto-aperfeiçoamento).

Este tipo de crença existe também no Paganismo da Tradicional Ibérica, apesar de não corresponder diretamente a ela e de não possuir, no mais das vezes, ligação definitiva com nenhum tipo claro de misticismo.
veja mais em:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Luciferianismo
http://br.geocities.com/ocaldeirao/luciferanismo.htm


"Num trono de ferro enferrujado,
Além da mais remota estrela do espaço,
Eu vi Satã sentado, sozinho,
Velho e encovado era o seu rosto;
Porque seu trabalho fora feito, e ele
Descansava na eternidade”.
"E até ele, do sol
Vieram seu pai e amigo,
Dizendo, - Agora que a obra está feita,
O antagonismo terminou -
E guiou Satã para o
Paraíso que Ele conhecia”.
"Gabriel, sem carranca;
Uriel, sem lança;
Rafael desceu cantando,
Dando Boas-Vindas ao seu antigo par:
E sentaram ao lado dele
Aquele que havia sido crucificado."

[James Stephens, The Fulness of Time (A Plenitude do Tempo)]